Oi, posso te contar algo?
O que mudou quando comecei a consumir conteúdo feito por mulheres
Passei boa parte da minha vida sem questionar o que era esperado de mim. Cresci rodeada por filmes, músicas e conversas que reforçavam a ideia de que gostar de meninos era natural, o único caminho. Era como se tudo ao meu redor conspirasse para moldar meus sentimentos e ações de uma forma que eu nunca havia parado para analisar.
Lembro-me de uma situação marcante na escola. Tinha uma amiga próxima, alguém com quem eu compartilhava segredos, risadas e sonhos. Tudo mudou por causa de um menino. Ele era meu amigo, e nunca havia mostrado nenhum interesse em mim além da amizade. Mas de alguma forma, senti que deveria competir por ele. Não porque eu realmente gostasse dele, mas porque parecia ser o que eu "deveria" fazer. Brigamos, e aquela amizade tão importante se perdeu. Ela nem sequer estava interessada nele, mas isso não importava. Eu já estava tão envolvida nessa lógica de disputa e validação masculina que me forcei a agir de um jeito que não fazia sentido para mim.
Foi só anos depois, ao começar a consumir conteúdo feito por mulheres e para mulheres, que percebi o quanto a heteronormatividade havia sido imposta em minha vida. O simples ato de ouvir outras histórias, de ver representações de mulheres que amavam mulheres, me abriu os olhos para tantas situações em que eu me forçava a caber em moldes que não eram os meus.
Eu percebia que insistia em "gostar de meninos", mesmo quando não havia um sentimento genuíno. Era como se algo dentro de mim dissesse: "Você precisa se apaixonar por ele, porque é isso que todo mundo faz." Esse comportamento não era natural, mas ensinado, reforçado por anos de exposição a uma visão única e limitada de amor e relacionamento.
Ao desconstruir essas ideias, passei a olhar para dentro de mim com mais honestidade. Comecei a perceber como era libertador me permitir sentir o que realmente fazia sentido para mim, sem tentar corresponder às expectativas dos outros. Foi transformador consumir conteúdos criados por mulheres que narravam histórias de amor entre mulheres, que falavam sobre identidade, autoconhecimento e liberdade. Essas vozes me ajudaram a encontrar a minha.
Ainda não me sinto confortável ou segura para me assumir, e talvez seja porque não vejo que, para mim, essa ação seja necessária. Não estou invalidando a sua experiência, mas talvez, para mim, nunca faça sentido fazer isso de "me assumir". O fato é que, apesar de não me rotular, passei a ter outra perspectiva sobre as relações amorosas possíveis.
Tive crises, ah, quem não tem? Mas foi transformador perceber que existem outros jeitos de viver e de amar, que a vida não precisa seguir o roteiro pré-estabelecido. Consumi histórias que me ensinaram a questionar, a olhar para dentro, a aceitar o que sou — mesmo que eu ainda não saiba exatamente como definir isso.
Hoje, ao olhar para trás, consigo reconhecer a força de tudo o que vivi e como essas experiências me moldaram. E, acima de tudo, aprendi que o amor e a amizade não devem ser definidos por expectativas externas, mas pela verdade que existe dentro de nós.


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